O Co-fundador da Oaktree e a Filosofia da Gestão de Riscos
Howard Marks, co-fundador da Oaktree Capital Management, é amplamente reconhecido como uma das mentes mais lúcidas de Wall Street quando o assunto é gestão de riscos e compreensão de ciclos econômicos. Com uma fortuna pessoal estimada em US$ 2,1 bilhões, Marks consolidou sua trajetória não através de apostas especulativas comuns, mas por sua habilidade única de identificar oportunidades em ativos negligenciados — os chamados “títulos podres” ou dívidas estressadas (distressed debt). Sob sua liderança, a Oaktree tornou-se a maior investidora mundial nessa categoria, demonstrando que é possível obter retornos consistentes ao atuar com disciplina onde outros enxergam apenas desastre.

O sucesso de Marks é fundamentado em uma premissa técnica: o mercado não é apenas um conjunto de números, mas um reflexo da psicologia humana. Enquanto a maioria dos investidores foca em previsões econômicas frequentemente imprecisas, Marks dedica-se a entender o posicionamento do pêndulo do mercado — que oscila invariavelmente entre o otimismo efervescente e o pessimismo paralisante. Sua abordagem permitiu que a Oaktree navegasse com sucesso por crises severas, como a de 2008, período em que a gestora captou mais de US$ 10 bilhões para investir enquanto o sistema financeiro global enfrentava uma crise de liquidez sem precedentes.
Além de sua performance como gestor, Howard Marks exerce uma influência intelectual profunda através de seus “memorandos para clientes”. Esses textos, conhecidos pela clareza e precisão analítica, são considerados leitura essencial para figuras como Warren Buffett, que descreveu as notas de Marks como “a primeira coisa que abre ao receber o e-mail”.
Sua filosofia, detalhada em obras como The Most Important Thing, introduz o conceito de “pensamento de segundo nível”, desafiando o investidor a olhar além do óbvio para encontrar valor real. Em 2019, a relevância da instituição que ele ajudou a construir foi confirmada pela Brookfield Asset Management, que adquiriu a maior parte da Oaktree por US$ 4,7 bilhões, preservando a autonomia de Marks para continuar guiando sua estratégia de longo prazo.
Formação e Trajetória: A Construção de uma Mente Analítica
A competência de Howard Marks na gestão de ativos não é fruto do acaso, mas de uma formação acadêmica rigorosa nas instituições que definiram as finanças modernas. Natural de Nova York, Marks graduou-se em economia pela University of Pennsylvania (Wharton), uma das escolas de negócios mais prestigiadas do mundo. No entanto, foi na University of Chicago, onde obteve seu MBA com foco em negócios e marketing, que sua visão de mercado foi moldada pelo rigor estatístico e pela teoria da eficiência dos mercados. Seu desempenho acadêmico foi tão expressivo que ele foi agraciado com o prêmio George Hay Brown, sinalizando precocemente sua capacidade analítica.

Em 1969, aos 23 anos, Marks iniciou sua jornada profissional no Citicorp (hoje Citibank). Durante os 16 anos em que permaneceu na instituição, ele ocupou cargos de alta relevância, como analista de pesquisa, diretor de pesquisa e vice-presidente sênior de portfólio. Foi nesse ambiente que Marks protagonizou um dos marcos de sua carreira: ao lado do investidor Bruce Karsh, ele estruturou o primeiro fundo de “ativos podres” (dívidas de empresas em dificuldades) em um banco de grande porte. Naquela época, investir em empresas à beira da falência era visto como uma prática marginal, mas Marks percebeu que, se o risco fosse precificado corretamente, esses ativos poderiam oferecer retornos assimétricos superiores.
Em 1985, Marks encerrou seu ciclo no Citicorp para integrar o TCW Group (Trust Company of the West). Na nova casa, ele liderou divisões especializadas em títulos de alto rendimento (high-yield) e títulos conversíveis, chegando à presidência da companhia. Sua passagem pelo TCW foi fundamental para consolidar sua reputação como um especialista em crédito privado e ativos complexos. Foi também o palco onde ele aprofundou sua relação com o grupo de sócios que, dez anos depois, o acompanharia na fundação da Oaktree.

O Pensamento de Segundo Nível: A Base da Vantagem Competitiva
Um dos pilares conceituais que Howard Marks detalha em seus livros e memorandos é o chamado “Pensamento de Segundo Nível”. Para Marks, o investimento bem-sucedido é uma busca por superioridade analítica; não basta estar certo, é preciso estar mais certo do que o consenso do mercado.
O pensamento de primeiro nível é simplista e superficial: “A empresa é boa, logo devo comprar a ação”. Já o pensamento de segundo nível é complexo e considera múltiplas variáveis: “Todos acham que a empresa é boa, por isso o preço está excessivamente alto e a expectativa é irreal; logo, devo vender”. Marks argumenta que, para obter retornos acima da média, o investidor deve ser capaz de processar informações de forma diferente e mais profunda que os demais. Essa lógica exige uma postura contrária e, muitas vezes, a coragem de ser o único a comprar quando todos estão vendendo, ou de se retirar do mercado quando o otimismo parece não ter limites.
A Fundação da Oaktree Capital: O Poder da Especialização em Crédito
Em 1995, Howard Marks, acompanhado por Bruce Karsh e outros quatro sócios egressos do TCW Group, fundou a Oaktree Capital Management em Los Angeles. A decisão de estabelecer uma nova gestora não foi motivada apenas pelo desejo de independência, mas pela necessidade de criar uma estrutura totalmente dedicada a uma filosofia de investimento alternativa: a busca por retornos elevados através da compra de títulos de dívida com desconto.
Desde a sua gênese, a Oaktree focou em nichos que a maioria das grandes gestoras evitava por considerar excessivamente arriscados ou complexos: títulos de alto rendimento (high-yield), private equity e, principalmente, créditos podres (distressed debt). A estratégia de Marks baseava-se na ideia de que, em momentos de pânico, o mercado tende a punir indiscriminadamente todas as empresas de um setor em crise. Ao realizar uma análise de crédito profunda, a Oaktree identificava companhias que, embora estivessem em dificuldades financeiras temporárias, possuíam ativos sólidos ou modelos de negócio viáveis que permitiriam a recuperação do valor investido.
A eficiência desse modelo foi comprovada pelo crescimento exponencial da gestora. O que começou como uma boutique de investimentos tornou-se uma das maiores referências globais em crédito privado. Em 2012, a Oaktree realizou seu IPO na Bolsa de Valores de Nova York, captando US$ 380 milhões e solidificando sua posição como uma instituição de capital aberto, mas que mantinha o rigor intelectual de seu fundador.
A Teoria do Pêndulo: A Psicologia como Motor dos Mercados
Para Howard Marks, o mercado financeiro não se move em linha reta, nem de forma aleatória; ele opera como um pêndulo. Em sua obra Mastering the Market Cycle, ele explica que o sentimento dos investidores oscila constantemente entre dois extremos perigosos: a euforia irracional e o pânico desmedido.
- O Extremo da Euforia: Quando o pêndulo atinge o ponto máximo de otimismo, os preços estão elevados, o risco é ignorado e todos acreditam que “desta vez é diferente”. Para Marks, este é o momento de maior perigo, pois a margem de segurança é inexistente.
- O Extremo do Pânico: Quando o pêndulo oscila para o lado oposto, os ativos são vendidos a qualquer preço, o pessimismo é total e as oportunidades de lucro extraordinário surgem para quem tem capital e estômago.
Marks argumenta que, embora seja impossível prever exatamente quando o pêndulo mudará de direção, é perfeitamente possível identificar em que posição ele se encontra no momento. O investidor de sucesso não tenta adivinhar o topo ou o fundo do mercado, mas ajusta a agressividade de sua carteira com base na temperatura atual: quando o mercado está eufórico, ele se torna defensivo; quando o mercado está deprimido, ele se torna agressivo.
Gestão de Risco: A Diferença entre Volatilidade e Perda Permanente
Um dos maiores legados teóricos de Marks é a redefinição do conceito de risco. Enquanto a academia financeira frequentemente utiliza a volatilidade (a oscilação de preços) como a métrica padrão para o risco, Marks discorda veementemente dessa abordagem. Para ele, o risco real não é o movimento de sobe e desce das cotações, mas a probabilidade de perda permanente de capital.
Ele introduz uma visão de risco baseada em distribuições de probabilidade. Para Marks, o investimento não é sobre certezas, mas sobre gerir as chances de múltiplos resultados. O risco aumenta quando:
- Os preços estão altos em relação ao valor intrínseco.
- A confiança dos investidores é excessiva.
- A liquidez do mercado é abundante demais, incentivando decisões imprudentes.
A estratégia da Oaktree é construída para ser assimétrica: busca-se capturar a maior parte da alta do mercado, mas com um foco obsessivo em limitar as perdas durante as quedas. Marks frequentemente cita que “se evitarmos os perdedores, os vencedores cuidarão de si mesmos”.
A Resiliência na Crise de 2008: O Triunfo da Paciência
A crise financeira global de 2008 foi o teste definitivo para a filosofia de Howard Marks. Enquanto o sistema bancário colapsava e o medo paralisava a maioria dos investidores, a Oaktree Capital demonstrou por que a preparação supera a previsão. Graças ao seu posicionamento cauteloso nos anos anteriores (quando Marks alertava em seus memorandos sobre a formação de uma bolha de crédito), a gestora possuía liquidez e clareza para agir.
Durante o auge da crise, a Oaktree captou mais de US$ 10 bilhões para seus fundos de oportunidades. Marks e sua equipe compraram dívidas de empresas sólidas que estavam sendo negociadas a preços de liquidação. Essa movimentação contrária não foi apenas um ato de coragem, mas uma aplicação técnica do “pensamento de segundo nível”: enquanto o primeiro nível dizia “o mundo vai acabar, venda tudo”, o segundo nível de Marks dizia “os preços atuais já pressupõem o fim do mundo; se o mundo não acabar, o lucro será massivo”. O resultado foi um dos períodos mais lucrativos da história da gestora, consolidando Marks como o “investidor para todas as estações”.
Os Memorandos de Howard Marks: A Bússola de Wall Street
Embora Howard Marks seja um gestor de bilhões de dólares, sua fama entre o investidor individual e a elite financeira deriva, em grande parte, de seus famosos “Memorandos para Clientes”. Iniciados em 1990, esses textos começaram como uma forma de compartilhar reflexões sobre o mercado, mas rapidamente se tornaram leitura obrigatória em todo o mundo.
A característica distintiva dos memorandos de Marks é o estilo direto, preciso e desprovido de jargões desnecessários. Ele não utiliza esses textos para promover os fundos da Oaktree, mas sim para educar o investidor sobre a natureza do risco e do comportamento humano. O impacto dessas publicações é tão profundo que Warren Buffett declarou: “Quando vejo os memorandos de Howard Marks no meu correio, são a primeira coisa que abro e leio. Sempre aprendo algo”.
Marks utiliza seus textos para alertar sobre excessos. Ele escreveu memorandos icônicos prevendo a bolha das empresas de tecnologia no final dos anos 90 e a fragilidade do mercado de crédito antes da crise de 2008. Seu objetivo não é acertar o timing exato do mercado, mas sim preparar a mente do investidor para as consequências inevitáveis da euforia excessiva.
A Bibliografia do Valor: Consolidando o “Mais Importante”
Para além dos memorandos, Marks sistematizou sua filosofia em livros que se tornaram best-sellers instantâneos e são utilizados em currículos de MBA ao redor do globo.
The Most Important Thing (O Mais Importante)

Lançado em 2011, este livro apresenta os pilares do que Marks chama de “bom senso incomum”. Ele argumenta que investir com sucesso não depende de uma única fórmula mágica, mas de uma série de 18 a 20 conceitos fundamentais que devem ser aplicados simultaneamente. Entre eles estão a compreensão da eficiência do mercado, a busca pelo valor intrínseco e, crucialmente, a gestão do risco. O livro enfatiza que, para ser um investidor de exceção, você deve ser capaz de fazer o que os outros não fazem e pensar o que os outros não pensam.
Mastering the Market Cycle (Dominando o Ciclo de Mercado)

Em sua obra de 2018, Marks aprofunda a técnica de identificar as fases da economia. Ele detalha como os ciclos de crédito são os mais impactantes para o mercado financeiro. Quando o crédito é fácil e barato, os ativos sobem e o risco é negligenciado; quando o crédito se torna escasso, as crises aparecem. O livro ensina o investidor a se posicionar de forma defensiva quando os ciclos estão no topo e de forma agressiva quando as oportunidades surgem no fundo.
Evolução Institucional: Do IPO à Parceria com a Brookfield
A trajetória da Oaktree Capital atingiu novos patamares de maturidade na última década. Em 2012, a empresa abriu capital na Bolsa de Valores de Nova York (IPO), captando US$ 380 milhões. Este movimento não apenas deu liquidez aos sócios fundadores, mas também aumentou a transparência da gestora, permitindo que investidores do varejo participassem do sucesso da instituição.
No entanto, o movimento mais estratégico ocorreu em março de 2019, quando a Brookfield Asset Management anunciou a compra de 62% da Oaktree Capital por aproximadamente US$ 4,7 bilhões. A união foi vista como um casamento perfeito: a Brookfield é uma gigante em ativos reais (imóveis e infraestrutura), enquanto a Oaktree é a líder indiscutível em crédito e ativos estressados. Howard Marks permaneceu como vice-presidente e manteve a autonomia operacional e intelectual da gestora, garantindo que a cultura de “gestão de risco acima de tudo” fosse preservada mesmo sob o guarda-chuva de um conglomerado maior.
O Investidor Filantropo e o Legado Humano
Howard Marks não limitou sua influência ao campo financeiro. Como filantropo, ele direcionou parte de sua fortuna para a educação e a arte. Ele financiou bolsas de estudo na University of Pennsylvania e atua no conselho de instituições prestigiadas, como o Metropolitan Museum of Art (MoMA) em Nova York. Sua atuação como presidente do conselho da Royal Drawing Room também reflete seu interesse pela preservação da cultura e da criatividade.
Essa faceta humanista transparece em sua filosofia de investimento. Marks acredita que a humildade é a característica mais importante de um investidor. Reconhecer que não sabemos o que o futuro reserva é, para ele, o primeiro passo para construir um portfólio resiliente.
Conclusão: A Síntese da Prudência e da Lucratividade
Howard Marks provou que o mercado financeiro não precisa ser um jogo de apostas impulsivas. Através da Oaktree, ele demonstrou que a análise rigorosa de crédito e a compreensão da psicologia das massas podem gerar retornos bilionários de forma sustentável.
Sua filosofia pode ser resumida na ideia de que o risco não é algo a ser evitado a qualquer custo, mas algo a ser compreendido e precificado. Ao focar em ativos depreciados e manter a disciplina durante os ciclos de euforia, Marks construiu um império que sobreviveu e prosperou em todas as crises das últimas quatro décadas. Para o investidor que busca solidez, a lição de Marks é clara: aprenda a ler o pêndulo, desenvolva o pensamento de segundo nível e, acima de tudo, proteja o seu capital nos momentos de excesso de confiança.
Saiba Mais: A Trilha do Conhecimento
Se a visão de Howard Marks sobre ciclos e riscos ressoou com sua estratégia, os próximos perfis desta série ajudarão a completar sua visão de mundo:
- “Ray Dalio: O Estrategista da Máquina Econômica” – Para entender a mecânica por trás dos grandes ciclos de dívida.
- “Warren Buffett: A Paciência do Valor“ – Para descobrir como a análise fundamentalista se une à visão de longo prazo de Marks.
- “John Bogle: A Revolução da Simplicidade“ – Para contrastar a gestão ativa de crédito com a eficiência do mercado passivo.



