Philip Fisher

Philip Fisher: O Pai do Growth Investing

Philip Fisher e o poder de olhar além dos balanços

Se você já ouviu alguém dizer que o segredo do sucesso é “comprar barato e vender caro”, Philip Fisher está aqui para te dizer que essa é apenas uma parte da história — e talvez a menos lucrativa. Enquanto a maioria dos investidores da sua época (e muitos de hoje) vivia mergulhada em planilhas tentando achar ações com desconto, Fisher percebeu cedo que o verdadeiro dinheiro não estava em comprar empresas baratas, mas em identificar empresas que se tornariam gigantes.

Nascido em 1907 e formado em Stanford, Fisher fundou a Fisher & Co. em 1931, em plena Grande Depressão. Em vez de se desesperar com a queda da bolsa, ele usou esse tempo para entender o que fazia certas companhias sobreviverem e prosperarem enquanto outras desapareciam. O resultado dessa observação foi uma filosofia que mudou o jeito de Warren Buffett investir: a ideia de que é muito melhor pagar um preço justo por uma empresa fantástica do que um preço incrível por uma empresa medíocre.

Sua abordagem era quase jornalística. Ele criou o método Scuttlebutt, que basicamente consistia em “fofoca profissional”: conversar com funcionários, clientes e concorrentes para saber se a diretoria era honesta e se o produto era realmente bom. Fisher não era um especulador de curto prazo. Quando ele comprou ações da Motorola em 1955, não estava pensando no próximo trimestre, mas nas próximas décadas. Ele manteve essas ações até o fim da vida, provando que, para quem sabe escolher bem, o tempo é o melhor aliado.

philip fisher

De Stanford à Grande Depressão: Como nasceu a Fisher & Co.

Imagine começar sua carreira no mercado financeiro exatamente no momento em que o mundo inteiro parece estar desmoronando. Foi exatamente isso que aconteceu com Philip Fisher. Ele não entrou no jogo em uma época de bonança; ele foi forjado no fogo da maior crise econômica da história moderna.

O abandono de Stanford pela prática

Fisher era um estudante de economia em Stanford, fazendo parte de uma das primeiras turmas de MBA da instituição. Ele era brilhante, mas tinha pressa. Em 1928, aos 21 anos, ele decidiu que as salas de aula eram teóricas demais para o que ele queria construir. Ele queria ver como o capital se movia no mundo real.

Ele conseguiu seu primeiro emprego como analista de valores mobiliários no Anglo-London Bank, em San Francisco. Naquela época, o mercado vivia uma euforia cega. Era o topo da bolha dos anos 20: pessoas comuns pegavam empréstimos para apostar em ações que não paravam de subir. Fisher, com seu olhar crítico, começou a notar que muitos daqueles negócios não tinham substância; eram apenas castelos de cartas sustentados por otimismo.

A lição do “Crash” de 1929

Quando o mercado quebrou em outubro de 1929, Fisher estava na primeira fila. Ele viu fortunas desaparecerem em dias e bancos sólidos fecharem as portas. Mas, enquanto a maioria entrava em pânico, Fisher tirou uma conclusão que moldaria sua vida: o preço de uma ação pode cair por pânico, mas o valor de uma empresa excelente sobrevive à tempestade.

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Ele percebeu que as empresas que tinham bons produtos, uma gestão honesta e planos de expansão reais foram as primeiras a dar sinais de vida após o desastre. Essa foi a semente do que viria a ser o investimento em crescimento. Ele parou de olhar para o que o mercado dizia sobre o preço e começou a olhar para o que a empresa fazia no chão de fábrica.

1931: Fundando a Fisher & Co. no olho do furacão

Abrir uma empresa de gestão de investimentos em 1931 parece loucura. O desemprego estava nas alturas e a confiança no mercado era zero. Mas Fisher viu uma oportunidade: as pessoas que ainda tinham dinheiro estavam desesperadas por uma análise que fizesse sentido, não apenas palpites de corretores.

Ele fundou a Fisher & Co. com um foco muito claro: especialização. Ele não queria saber de tudo; ele queria saber muito sobre poucas empresas, especialmente as que estavam na fronteira da inovação. Para Fisher, o futuro estava na tecnologia e na pesquisa científica.

“O melhor momento para começar um negócio de análise de empresas é quando ninguém mais quer ouvir falar delas. É aí que você encontra a verdade sem o barulho da euforia.”

Nesse início, ele começou a pavimentar o caminho para investir em nomes que, anos depois, se tornariam titãs, como a Texas Instruments e a Motorola. Ele não buscava empresas que pagavam dividendos altos para sobreviver ao presente; ele buscava empresas que reinvestiam cada centavo para dominar o futuro.

O método “Scuttlebutt”: Investigando empresas como um detetive

Para Philip Fisher, ler o balanço patrimonial de uma empresa era como ler o currículo de alguém: você vê o que a pessoa quer que você veja, mas não sabe quem ela realmente é. Para descobrir a verdade, ele criou o que chamou de Scuttlebutt — um termo em inglês que remete ao “disse-me-disse” ou ao papo de corredor.

Fisher acreditava que a vantagem competitiva de um investidor não vinha de fórmulas matemáticas complexas, mas de uma investigação quase jornalística. Ele não ficava trancado em um escritório em Wall Street; ele ia para a rua.

Os 4 pilares da investigação de Fisher:

  • Clientes: Ele perguntava: “Por que você compra dessa empresa e não da concorrente?”. Se a resposta fosse apenas “porque é mais barato”, Fisher perdia o interesse. Ele buscava empresas que os clientes amavam e das quais não conseguiam sair.
  • Concorrentes: Esta era sua técnica favorita. Ele visitava os rivais e perguntava: “Qual empresa neste setor mais te dá dor de cabeça?”. Se vários concorrentes apontassem para a mesma empresa, Fisher sabia que tinha encontrado um vencedor.
  • Fornecedores: Ele queria saber se a empresa era uma parceira justa ou uma “valentona” que esmagava seus fornecedores para conseguir margem. Empresas que maltratavam parceiros costumavam ter problemas de longo prazo.
  • Ex-funcionários: Conversar com quem saiu da empresa era a melhor forma de entender a cultura interna e se os executivos no topo eram gênios ou apenas burocratas.

O checklist de Fisher: Os 15 pontos para identificar uma estrela

Fisher não comprava uma ação sem antes passar por um filtro rigoroso. Em seu livro mais famoso, ele listou 15 pontos essenciais. Não precisamos decorar todos, mas os pilares centrais mostram o que realmente importava para ele:

  • Potencial de Mercado: A empresa tem produtos ou serviços com potencial de crescimento para muitos anos?
  • Pesquisa e Desenvolvimento (P&D): Quanto do que ela ganha hoje é investido para criar os produtos de amanhã? Para Fisher, uma empresa que não inova está apenas esperando para morrer.
  • Eficiência de Vendas: Ter um produto bom é 50% do caminho; os outros 50% são a capacidade de convencer o mundo a comprá-lo.
  • Relações Trabalhistas: Os funcionários estão felizes? Fisher foi um dos primeiros a notar que empresas com greves constantes ou alta rotatividade de pessoal raramente eram bons investimentos.
  • Integridade da Gestão: Os diretores falam a verdade quando as coisas vão mal ou tentam esconder os problemas?

“O investidor médio está tão preocupado com o preço que esquece de olhar para o valor do que está comprando. É como olhar para o preço do quilo do ferro e esquecer que você está comprando uma Ferrari.”


O caso Motorola: O que acontece quando você segura uma ação por 50 anos

Se você quer entender a paciência de Fisher, precisa olhar para a Motorola. Em 1955, a Motorola era uma empresa de tecnologia emergente, focada em rádios e televisores. Fisher aplicou seu checklist e seu método Scuttlebutt e percebeu algo: eles tinham a melhor equipe de engenharia do país.

Ele comprou as ações e o que aconteceu depois foi um teste para qualquer investidor:

  • O mercado caiu. Ele segurou.
  • A tecnologia mudou (dos rádios para os semicondutores). Ele segurou.
  • A empresa enfrentou crises de crescimento. Ele segurou.

Fisher manteve essas ações por quase meio século. Ele viu a Motorola se transformar de uma fábrica de rádios em uma gigante global de comunicações. O retorno não foi de 100% ou 200%, mas de milhares de vezes o valor inicial. Para ele, o imposto e os custos de transação de ficar “pulando de galho em galho” eram os maiores inimigos do patrimônio.


A filosofia do “quase nunca”: Por que vender é o último recurso

Fisher tinha uma regra de ouro que irritava os corretores da bolsa: “Se o trabalho foi bem feito quando a ação foi comprada, a hora de vender é quase nunca”.

Para ele, existiam apenas três motivos aceitáveis para vender uma ação:

  • Erro de Análise: Você descobriu que a empresa não era tão boa quanto você pensava.
  • Mudança nos Fundamentos: A gestão mudou para pior ou o produto tornou-se obsoleto (como uma fábrica de máquinas de escrever na era do computador).
  • Oportunidade Drasticamente Melhor: Você encontrou algo tão extraordinário que justifica os impostos e custos de mudar de posição.

Ele acreditava que vender só porque o preço subiu muito era um erro amador. Se a empresa continua crescendo e dominando o mercado, por que você sairia do negócio?

Graham vs. Fisher: Como Buffett uniu o melhor dos dois mundos

Se você já estudou a vida de Warren Buffett, sabe que ele começou como um discípulo fiel de Benjamin Graham. A estratégia era simples: encontrar “bitucas de cigarro” — empresas baratas, muitas vezes à beira da falência, mas que ainda tinham uma última “baforada” de valor para oferecer. Era uma visão puramente matemática.

Mas foi a leitura de Philip Fisher que permitiu a Buffett evoluir. Enquanto Graham focava no que a empresa valeria se fosse liquidada hoje, Fisher focava no que ela poderia valer daqui a 20 anos. Buffett costuma resumir sua própria genialidade com uma conta simples: “Sou 85% Graham e 15% Fisher”.

Essa mistura permitiu que a Berkshire Hathaway deixasse de comprar apenas “empresas baratas” para comprar “empresas excelentes a preços justos”. Sem Fisher, Buffett talvez nunca tivesse investido na Apple ou na Coca-Cola, pois elas raramente são negociadas por preços de “bituca”. Fisher deu a Buffett a confiança para pagar mais caro por um negócio que domina seu setor.


Investidores conservadores também dormem tranquilos

Fisher publicou outras obras importantes, como “Investidores Conservadores Dormem Tranquilos”. Para ele, ser conservador não significava colocar o dinheiro na poupança ou em títulos do governo. Pelo contrário: Fisher achava arriscado demais não ter ativos que crescessem acima da inflação.

Sua definição de investimento conservador era baseada em quatro dimensões:

  • Excelência em Produção e Marketing: A empresa sabe fabricar e, acima de tudo, sabe vender?
  • O Fator Humano: A empresa atrai e retém as melhores mentes?
  • Características do Negócio: O setor permite margens de lucro altas e sustentáveis?
  • Preço de Compra: Mesmo uma empresa ótima pode ser um investimento ruim se você pagar um preço absurdamente alto.

O objetivo de Fisher era que o investidor não precisasse olhar a cotação da bolsa todos os dias. Se você fez o dever de casa (o Scuttlebutt) e a empresa é sólida, as oscilações do mercado são apenas ruído.


Fisher em 2026: Aplicando o crescimento na era da tecnologia atual

Como Fisher investiria hoje? Provavelmente, ele estaria fascinado com a Inteligência Artificial e as Big Techs, mas não compraria qualquer uma. Ele usaria o “Scuttlebutt digital”.

Em vez de apenas visitar fábricas, o investidor moderno de Fisher estaria:

  • Lendo avaliações no Glassdoor para entender a cultura interna da Nvidia ou do Google.
  • Monitorando comunidades de desenvolvedores no GitHub ou Reddit para ver qual software é realmente o preferido dos especialistas.
  • Analisando a integridade dos CEOs em entrevistas longas e sem roteiro (podcasts).

Os 15 pontos de Fisher continuam terrivelmente atuais. Em um mundo de mudanças rápidas, a empresa que não investe em pesquisa e desenvolvimento (o ponto 4 do checklist) está fadada ao esquecimento.


O legado de um investidor que preferia a discrição

Philip Fisher faleceu em 2004, aos 96 anos, deixando para trás não apenas uma fortuna, mas um manual de conduta. Ele provou que investir não é sobre ter acesso a informações privilegiadas ou supercomputadores, mas sobre ter curiosidade e paciência.

Seu maior legado é a libertação do investidor da “ditadura dos trimestres”. Ele nos ensinou que, se você encontrar um negócio extraordinário gerido por pessoas íntegras, o tempo fará todo o trabalho pesado por você. Enquanto Wall Street grita sobre a próxima queda de 5% ou 10%, o investidor de Fisher está apenas observando suas árvores crescerem.


Bibliografia: A Bíblia do Crescimento

1. Ações Comuns, Lucros Extraordinários (1958)

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Este é o “manual de instruções” original. Foi o primeiro livro de investimentos a entrar na lista de mais vendidos do New York Times, o que por si só já foi um feito histórico para a época.

  • O que o livro ensina: Ele apresenta os famosos 15 pontos que Fisher usava para analisar uma empresa. É aqui que ele explica que o investidor deve agir como um detetive, usando o método Scuttlebutt.
  • O conceito chave: A ideia de que o “fator humano” e a “capacidade de pesquisa” de uma empresa são mais importantes do que os ativos físicos que ela possui (prédios, máquinas, etc.).
  • Por que ler: Se você quer aprender a filtrar empresas para encontrar aquelas que podem multiplicar seu capital por 10 ou 20 vezes, este livro é o ponto de partida obrigatório.

2. Investidores Conservadores Dormem Tranquilos (1975)

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Muitas pessoas acham que investir em empresas de crescimento (tecnologia, inovação) é “arriscado”. Fisher escreveu este livro justamente para provar o contrário.

  • O que o livro ensina: Fisher redefine o que é ser conservador. Para ele, o investidor conservador não é aquele que deixa o dinheiro parado, mas aquele que entende tão bem o negócio onde colocou seu dinheiro que as oscilações da bolsa não o preocupam.
  • O conceito chave: As quatro dimensões do investimento conservador. Ele analisa a qualidade da produção, do marketing, das finanças e do pessoal. Se a empresa pontua bem nessas quatro áreas, o risco de perda permanente de capital é quase zero.
  • Por que ler: É ideal para quem sofre com a ansiedade da volatilidade do mercado. Ele ensina a trocar a preocupação com o preço pela confiança no negócio.

3. Caminhos para a Riqueza através de Ações Ordinárias (1960)

Este livro é uma espécie de aprofundamento filosófico. Ele foi escrito logo após o sucesso do primeiro livro para responder às dúvidas dos investidores da época.

  • O que o livro ensina: Fisher aborda a importância do timing (não o timing do gráfico, mas o timing da maturidade da empresa) e como as influências institucionais afetam os preços. Ele também discute a importância de não diversificar demais — para ele, ter 5 empresas fantásticas é muito mais seguro do que ter 50 empresas medianas.
  • O conceito chave: A “Teoria do Rebanho”. Fisher mostra como a maioria dos investidores institucionais age de forma igual e por que o investidor individual tem vantagem ao pensar de forma independente.
  • Por que ler: É excelente para entender a psicologia de manter uma posição por décadas e como evitar as armadilhas comuns que fazem investidores venderem suas melhores ações cedo demais.

A Trilha do Conhecimento: Explore outros estilos de investimento

O método de Philip Fisher focado em qualidade e crescimento é apenas um dos caminhos para o sucesso financeiro. Para construir uma visão completa do mercado, vale a pena explorar as outras estratégias que detalhamos nesta série de artigos. Cada um desses grandes nomes oferece uma peça diferente para o seu quebra-cabeça de investimentos:

  • John Bogle e a força da simplicidade: Se Fisher busca as “agulhas no palheiro”, Bogle mostra por que, para muitos, o segredo está em comprar o palheiro inteiro. Conheça a lógica por trás dos fundos de índice e da gestão passiva. [Leia o artigo sobre John Bogle].
  • Stanley Druckenmiller e a visão macro: Enquanto Fisher foca no que acontece dentro da empresa, Druckenmiller olha para as grandes forças da economia global. Entenda como operar juros, câmbio e ciclos econômicos. [Leia o artigo sobre Stanley Druckenmiller].
  • Carl Icahn e o poder do ativismo: Fisher prefere ser um parceiro silencioso de boas gestões. Já Icahn mostra como um investidor pode assumir o controle e forçar mudanças para destravar valor em empresas mal geridas. [Leia o artigo sobre Carl Icahn].
  • Howard Marks e a psicologia dos ciclos: Para complementar a busca por crescimento de Fisher, aprenda com Marks a identificar os momentos de euforia e pânico do mercado para proteger seu patrimônio. [Leia o artigo sobre Howard Marks].

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